Revisando o Manifesto Ágil – Kent Beck na SLLConf

Seguindo a série de notas sobre a SLLConf iniciada com a mensagem de abertura do Eric Ries, nesse post vou cobrir as observações sobre a palestra do Kent Beck, que abriu o bloco Build do evento. Também estão no final o vídeo e os slides da palestra.

Para quem é da área de software, Kent Beck não necessita de apresentação. Entre diversas outras coisas memoráveis, ele foi um dos signatários originais do Manifesto Ágil e criador da metodologia Extreme Programming e dos conceitos de Desenvolvimento Orientado a Testes.

Ele iniciou sua palestra comentando o fato de que os conceitos de Lean Startup e a comunidade de prática que se formou em torno do tema foram responsáveis por trazer uma nova “energia” para que ele continue criando negócios através da sua capacidade de desenvolver software. Na sequência, ele fez uma série de análises que geraram muita discussão e comentários na blogosfera. Abaixo faço o resumo dos principais conceitos:

Encontrando o “ponto da coceira”

Essa foi uma analogia bem-humorada entre as Startups e uma experiência que ele teve com uma das cabras de sua criação. A estória é a de que um dia ele estava brincando com uma das cabras, fazendo um movimento de cócegas com os dedos ao longo do corpo da cabra, que por sua vez não reagia àquele movimento. Em um determinado momento, Kent achou um ponto (itchy spot) onde, com o mesmo movimento nos dedos, a cabra teve uma reação desproporcional às cócegas.

Com as Startups, a coisa é parecida. Você tenta uma, duas, três, várias vezes, e recebe quase nada de resposta do mercado. De repente, nesse processo iterativo, a Startup encontra algo que tem uma demanda e uma alavancagem desproporcional ao resto. Achar esse “ponto da coceira” requer timing, sorte, mas principalmente, muitas “cócegas”.

É aí que entra uma das ideias principais das Lean Startups: aumentar a velocidade de iteração para garantir que se ache esse “itchy spot” o quanto antes, maximizando as chances de sucesso do empreendimento.

O princípio de “Pull”

Nas suas apresentações, Eric Ries sempre mostra o Loop Fundamental da Lean Startup, que é composto pelo ciclo Build->Measure->Learn (clique aqui para ver a imagem).

Kent Beck analisou esse loop e percebeu que, se quisermos extrair o máximo de valor de cada iteração, a sequência está na verdade invertida. Ele então propôs que adotássemos algo mais próximo do conceito de “Pull” do Lean Manufacturing, ou seja, começar com uma necessidade concreta (de aprendizado ou demanda dos clientes). Desta forma, o Loop deveria estar na sequência: Learn->Measure->Build.

Loop Learn Measure Build

Loop Learn Measure Build

Kent também escreveu um post explicando melhor sobre essa ideia do Learn->Measure->Build, dando alguns exemplos práticos de como isso altera a maneira de agir.

Essa ideia também se alinha com a forma que os princípios Ágeis são praticados hoje. Segundo ele, as metodologias ágeis por si só trazem bastante micro-eficiências ao processo de desenvolvimento de software, porém se não alinhadas a esse processo maior de aprendizado e Customer Development, perdem macro-eficiências por permitir que se construa coisas que as pessoas não querem ou precisam.

Revisando o Manifesto Ágil

Aproveitando o insight acima, Kent Beck fez uma revisão do Manifesto Ágil aplicado ao contexto das Startups:

Valorizar:

Visão da Equipe e Disciplina mais do que Indivíduos e Interações (e mais do que Processos e Ferramentas);

Aprendizado Validado mais do que Software em Funcionamento (e mais do que Documentação Abrangente);

Descoberta do Cliente mais do que Colaboração com o Cliente (e mais do que Negociação de Contratos);

Iniciar as Mudanças mais do que Responder às Mudanças (e mais do que Seguir um Plano);

Esse post traz mais detalhes sobre esses pontos.

O princípio de “Flow”

Para fechar a palestra, Kent falou sobre o quanto o princípio de “Flow” está alinhado ao de “Pull” para as Startups. A ideia central é que devemos buscar minimizar o tempo total gasto no Loop para cada iteração.

Para o processo de aprendizado, ter “meia-entrega” em menos tempo é mais valioso do que uma entrega completa em mais tempo. Devemos então sempre nos perguntar: Como podemos diminuir o tempo nesse próximo ciclo Build->Measure->Learn para o que queremos aprender? Qual o atalho que podemos tomar ou a redução que podemos fazer no Build?

Ele exemplificou usando um caso próprio de aplicação de um MVP, e brincou: “Not having a customers is a blessing. You can make mistakes all along.”

Deixo também mais dois quotes provocantes que geraram alguns debates interessantes.

“As a developer, you have to realize that the solutions to shortening the cicle might not be the better technicaly.
Sometimes, it´s gonna look like hackery.”

“Good engineering sometimes isn´t good startup engineering. It depends on the Learning you need to create.”

Seguem agora o vídeo e os slides da palestra:

To agility, and beyond…




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  • http://www.skmurphy.com/blog/2010/04/25/startup-lessons-learned-conference-coverage-roundup/ SKMurphy » Startup Lessons Learned Conference Coverage Roundup

    [...] Eric Santos “Revisando o Manifesto Ágil – notas da palestra do Kent Beck na SLLConf“ [...]

  • joaohornburg

    Muito boa essa palestra do Kent Beck. Das palestras da SLLConf que eu vi até agora, foi a que eu mais gostei.

  • Bruno Ghisi

    Muito bom, Eric! Parabéns pelo blog, sempre acompanho apesar de comentar pouco.

  • Bruno Ghisi

    Muito bom, Eric! Parabéns pelo blog, sempre acompanho apesar de comentar pouco.

  • http://www.manualdastartup.com.br/blog/continous-deployment-em-uma-lean-startup-notas-da-palestra-do-ash-maurya-na-sllconf/ Continous Deployment em uma Lean Startup – notas da palestra do Ash Maurya na SLLConf » Manual da Startup

    [...] Ash lembrou que Continuous Deployment ajuda na tarefa de diminuir o tempo em que uma funcionalidade é construída, mas não diz nada sobre quais são as funcionalidades certas para entrar em desenvolvimento. (o que lembra a proposição do Kent Beck para inverter a ordem do Loop da Startup para Learn->Measure->Build). [...]

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