Repensando a formação dos empreendedores de tecnologia

Uma Startup de tecnologia é um “bicho” completamente diferente de uma empresa tradicional. Por razões óbvias as Startups não têm as mesmas características de uma grande empresa (recursos, processos, hierarquia, etc.), mas também diferem muito de uma Pequena ou Média Empresa tradicional (franquias, concessionárias, padarias, consultórios, agências, etc.). Comparado com as PMEs, as Startups de tecnologia possuem um grau de risco muito mais elevado, mas por outro lado também têm potencial de escalar muito além de um crescimento linear. Porém, especialmente aqui no Brasil, há um vácuo na formação desse tipo de empreendedor.

As escolas e cursos de administração tradicionais são capazes de formar bem o gestor de nível médio de grandes empresas. Todo o contexto dos cursos (graduação, pós, MBA, etc.) das principais universidades é orientado para “formar o aluno para o mercado de trabalho”. Além das instituições formais e diversos eventos, publicações como a HSM ou a Exame também são voltadas para auxiliar bastante nessa formação de gestores de grandes empresas.

Já para as PMEs, apesar de faltarem universidades com bons programas de formação de empreendedores, há instituições que fazem um ótimo trabalho neste campo, tais como o SEBRAE e a Endeavor. Também existem publicações voltadas para esse público, como a Exame PME, PEGN, entre outros. O mesmo acontece com os livros sobre empreendedorismo, que estão bem voltados para esse tipo de empresa. Até o empreendedorismo social está coberto com organizações como a Artemisia, Aliança Empreendedora e The Hub.

No parágrafo anterior, não foi por acaso que apontei os links para os blogs de algumas dessas organizações. Nessa seara de empreendedorismo, os blogs já fazem um papel muito importante na formação do empreendedor. Além desses, há outros ótimos como o Saia do Lugar, Blog do Empreendedor, Miguel Cavalcanti, ResultsOn, Fabio SeixasLeo Kuba, Pierre SchurmannInsistimento, Marcelo ToledoTribo do MouseBizRevolution, entre outros. Muitos desses blogs cobrem tecnologia e Web de diversas formas, mas não são necessariamente orientados para discutir empreendedorismo de base tecnológica.

E as Startups de Tecnologia?

Como eu disse acima, Startups de tecnologia (principalmente Web-based) são um “bicho” diferente, e por isso também exigem técnicas, recursos, equipe, processos e investimento de natureza diferente. É nesse campo que acredito que temos muito a andar ainda.

Primeiro, as instituições formais (universidades) não estão nem um pouco preparadas para ensinar isso. Ainda próximo do ambiente acadêmico, as incubadoras de empresas de tecnologia funcionam muito mais como apoio básico para Startups – escritório mais barato, ajuda legal, contábil, de RH, etc. – do que para ensinar e fazer mentoring para empreendedores.

Há algumas iniciativas esparsas que ajudam no aprendizado e motivação dos empreendedores de tecnologia, como por exemplo o Startup Meetup, o Desafio Brasil, o BizSpark e o Seed Forum FINEP. Ainda nas instituições, ao contrário do que acontece nos EUA, os Angels e fundos de Seed Money aqui no Brasil ainda têm um papel bastante tímido na disseminação de conhecimento (confira a lista deles aqui nesse post da Aceleradora). Já a Aceleradora é uma iniciativa diferenciada, tanto pelo seu trabalho com as Startups selecionadas quanto pelo conteúdo do seu blog.

E por falar em blogs, é aqui que o empreendedor Web brasileiro consegue aprender alguma coisa de verdade, mas em geral tem que recorrer aos blogs e livros de empreendedores/investidores dos EUA. Sem dúvida é possível aprender muito com eles, mas há momentos em que as práticas não se aplicam ao contexto específico do Brasil. Por aqui há bons blogs de cobertura e análise da indústria, como ReadWriteWeb Brasil, Habilidade 20%Startupi (fora alguns regionais, como o TISC) e outros bons (ainda que um pouco parados), como o Acelerando a Inovação e Aprendendo Empreendendo. Uma das minhas intenções aqui no Manual da Startup é ajudar nessa tarefa de formação.

O problema é que, pela natureza e grande diversidade dos blogs, é muito difícil aprender de uma maneira mais sólida, mais profunda. Os blogs são ótimas fontes de dicas, práticas e até motivação pessoal, mas falta um modelo (framework) para encaixar essas informações e ajudar o empreendedor a tomar decisões, sabendo o que priorizar a cada momento e identificar o que é progresso em cada fase da Startup.

Apesar do grande degrau entre o Brasil e EUA, essa falta de modelo não é exclusividade nossa. Criar esse framework de forma conjunta e inseri-lo nas instituições de ensino (americanas, no caso) é o desafio que o Steve Blank assumiu. O vídeo abaixo – último da série sobre a Startup Lessons Learned Conference – é indispensável para entender direito esse desafio de formação de empreendedores de Startups de tecnologia.

Steve fala sobre como esse movimento de Lean Startups está ajudando a criar a primeira grande “metodologia” para empreendedorismo em Startups de tecnologia, baseada nos conceitos de Customer Development e apimentada com práticas e experiências que estão sendo compartilhadas de forma bastante rápida e transparente por diversos empreendedores. Em paralelo a isso, incubadoras 2.0 como a YCombinator e TechStars têm feito um ótimo trabalho na parte de mentoring, mas sem uma grande preocupação com processos. A junção dessas duas coisas seria um ótimo passo mais escalável nessa formação de empreendedores, o que segundo Steve após algum tempo seria seguido por instituições como Stanford, Harvard, etc.

Acredito que podemos fazer coisas bem semelhantes aqui no Brasil. Ideias? ;)

Para fechar, deixo o vídeo e os slides da palestra dele abaixo:


Watch live video from Startup Lessons Learned on Justin.tv




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